quinta-feira, 8 de março de 2012

Assédio moral contra a mulher no trabalho: marcas que uma rosa não apaga.



 O assédio moral no ambiente de trabalho pode ser conceituado como “a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comum em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego".

Considerando o recente processo histórico de inserção das mulheres no mercado de trabalho e a ainda persistente colocação em cargos de nível inferior e/ou com salários significativamente inferiores aos dos homens – questões diretamente influenciadas pelas relações desiguais de gênero, às quais são determinadas pelo modelo patriarcal e machista da sociedade em que vivemos – podemos afirmar que as mulheres são o perfil da classe trabalhadora que mais sofrem assédio moral nas relações de trabalho. 

A ideia de que uma maior eficiência, capacidade laboral, biológica e intelectual são maiores no homem que na mulher, além de questões como a imposição social da mulher também ter que executar serviços domésticos em seu lar e o constante ‘medo’ de perder o emprego devido ao afastamento por uma gravidez fazem com que as mulheres sejam constantemente submetidas à situações discriminatórias e/ou vexatórias em seu ambiente de trabalho.

Contudo, é sabido que essas situações são, majoritariamente, veladas. Atitudes dos empregadores como a comemoração do 8 de março – e a entrega de rosas nesse dia – nada mais são que um mecanismo para mascarar toda a desestabilização emocional e psíquica e os ataques à dignidade e identidade como conseqüência de inferiorização e humilhações sofridas cotidianamente por mulheres no trabalho. 

Que neste 8 de março, em nossos locais de trabalho, ao invés de recebermos rosas e belas mensagens, exijamos um ambiente de trabalho digno, sem violência, ético e que respeite e valorize a mulher enquanto trabalhadora! 
LUTA MULHER!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma Guerreira Alagona*

O Guerreiro é um auto natalino que tem o sincretismo religioso e cultural em suas peças e em suas danças, criado em finais da década de vinte do século de XX. “Um Reisado Moderno”, como definiram estudiosos da cultura popular alagoana.

Da fusão dos caboclinhos (dança), do reisado, de elementos afro-religiosos e do catolicismo popular, surgiu o Guerreiro. Uma das características dessa dança tradicional de nossa terra são os diversos personagens que a compõe, entre eles: rainhas, reis, bumba meu boi e o índio Peri. Cabe ressaltar que quem fica à frente do grupo é o mestre o contra-mestre. Geralmente, os folguedos tradicionais da cultura alagoana são regidos ou conduzidos por homens, contudo fato interessante é que existe em Teotônio Vilela um grupo de Guerreiro em que suas lideranças são duas senhoras e neste espaço nos dedicaremos ele: o “Guerreiro Vilelense Mimo do Céu”.

Este grupo possui como criadora, coordenadora e mestra, a dona Cícera. Essa representante da arte alagoana, desde criança contribuiu para a valorização deste folguedo, não se conformando com a ausência de políticas públicas de incentivo ao Guerreiro mestra Cícera (com aproximadamente 70 anos de idade), organizou o primeiro e único Guerreiro da cidade ( na zona da mata alagoana). Juntamente com sua contra-mestre, Dona Francisca, as mesmas confeccionam, com recursos próprios, os adereços usados nos ensaios e apresentações.


Dona Cícera, mestra de guerreiro.











Em uma sociedade onde prevalecem os valores patriarcais e machistas, em que a mulher muitas vezes era impedida de se organizar, dona Cícera levou o Guerreiro para todos os lugares onde pode, mesmo contra a vontade de seu ex-marido ficou à frente dessa dança.
A atual formação do grupo é de 25 crianças e adolescentes, sendo 24 meninas, que olham na imagem da dona Cícera e da dona Francisca um exemplo de dedicação e autonomia feminina, em uma sociedade em que a mulher e as manifestações culturais são subestimadas pelo meio público e privado.
 O desejo é de que essas meninas, dentro do folguedo, produzindo e propagando a arte e cultura alagoana e, acima de tudo, possam conviver em um espaço de interação, o qual lhes seja permitido e incentivado ser protagonistas de sua própria história.
 

*Fragmento de pesquisa, escrito por Juliana Gonçalves, graduanda em História na Universidade Federal de Alagoas. Cedido pelo autora.
Imagens: Arquivo pessoal da pesquisadora.

segunda-feira, 5 de março de 2012

ATENÇÃO: Atividade na UFAL

A atividade realizada na UFAL irá acontecer no antigo CSAU, bloco dos cursos de saúde, localizado atrás da Biblioteca Central.

No bloco haverá sinalização levando à sala correspondente!


8 de março: Por que as mulheres devem resistir?

- O Coletivo Mulheres Resistem saúda a todas e todos os visitantes e participantes das II Jornadas de Lutas da Mulher! -

É chegado o mês de março e tudo se volta para o “universo da mulher”: A mídia impulsiona o mercado, que se enche de flores, utensílios domésticos e liquidações de vestuário. Porém, numa sociedade nada laica, que ainda encara a legalização do aborto como uma questão religiosa e todos os ataques machistas sofridos pela mídia burguesa – em forma de propagandas e stand ups -, como piadas, não é novidade a transformação de nossas datas de memória e luta em festa.
Não se sabe ao certo das origens do 8 de março, se em memória à greve das trabalhadoras têxteis ou uma conquista “in parlamento” de uma data para comemoração internacional, em reconhecimento. A questão é que, há anos muitas mulheres vem se abstendo da reivindicação da idéia que são humanas como qualquer homem, o que significa que é legítimo ser representada como tal e não por uma rosa ou um pano de prato.
O 8 de março deve nos lembrar de todas as mulheres que morreram nos fronts em busca de libertação, de todas que estão vivas na luta pelos nossos direitos e principalmente das que sofrem todos os dias pelas imposições de uma sociedade patriarcal e capitalista.
Se as escolas ensinam os filhos a agradarem às mães, deveriam lhes ensinar que todos somos iguais e livres, ‘deseducando-lhes’ o gênero; se a propaganda lembra ao marido de comprar presentes, deveria lembrar que a mulher é sua companheira e não propriedade e escrava, portanto, ele também é responsável pelas atividades domésticas e cuidado dos filhos; se o chefe lhe deixa um cartão à mesa, deveria deixar o correspondente a um salário digno do esforço pelo seu trabalho.
É neste intuito que o Coletivo Mulheres Resistem propõe as II Jornadas de Lutas da Mulher juntamente com o Cine Feminista, para atingir estudantes, trabalhadoras e trabalhadores, donas e donos de casa, desempregadas e desempregados, lembrando-lhes o verdadeiro sentido da luta pela libertação humana, anticapitalista e antisexista! Não podemos e muito menos devemos mais tolerar a opressão da mulher em nossos meios de convivência!


As mulheres devem resistir, pois se não por elas sua libertação não virá!
As mulheres devem resistir, pois se não resistem não terão forças para lutar!

Viva o 8 de março!
Viva a resistência feminista!
Viva a resistência do povo e o poder popular!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

II Jornadas de Luta da Mulher + Cine Feminista


Em 2011, o Coletivo Mulheres Resistem realizou a sua primeira edição das Jornadas de Luta da Mulher, uma iniciativa de mulheres de várias partes do Brasil após o ELAOPA 2011, no intuito de fomentar debates a partir de temáticas que cercam a luta da mulher, para além das simples flores no 8 de março. Nesta segunda edição agrega em suas atividades a proposta do Cine Feminista, surgido em Salvador e executadao também em Natal e Recife no mesmo ano de 201, este muitas mulheres estão se organizando em suas cidades, esperando ter ssegundas e muitas primeiras exibições em mais partes do Brasil!

Arriba las que luchan!

Confira abaixo a chamada e programação para II Jornadas de Lutas da Mulher!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Não é crime passional! O Machismo humilha, agride e mata!


Ciúme? Amor? Rejeição? Cuidado? Quando um crime deixa de ser passional? O Hospital Geral do Estado de Alagoas (HGE) registrou 385 casos de agressão contra mulheres que necessitaram de atendimentos especializados neste serviço em 2010, uma média de 1,05 agredidas por dia e 32,08 ao mês. Em 2011, somente no primeiro semestre, já foram notificados aproximadamente 600 casos desse mesmo tipo de violência, dados esses que confirmam que 4 entre 10 mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica no Brasil.
Em Maceió, capital do estado de Alagoas, neste mesmo primeiro semestre de 2011 nos deparamos não somente com casos de violência. Muito além da agressão, chocaram a sociedade não simplesmente pelo fato de serem assassinatos, mas pela forma odiosa de matar, como os cinco assassinatos em pouco mais de 3 dias, nos quais todas as vítimas eram mulheres, mutiladas e até mesmo decapitadas, jogadas em vias públicas.
Há 5 anos da entrada em vigor da Lei Maria da Penha ainda não tivemos números significativos de ações que prestigiassem a divulgação da mesma para as mulheres que mais precisam, refletidas no índice de denúncias realizadas em contraponto ao número de agressões sofridas, e ainda são comuns os casos onde agressores proibidos de aproximar-se da vítima são os mesmos responsáveis pela sua morte.
Os reais motivos da agressão contra a mulher ainda são omitidos pelo senso comum, que justifica a submissão da mulher ao seu agressor pelo apreço que ela supostamente tem em ser violentada. Não precisamos ir muito longe para descobrir que essas motivações, na verdade, envolvem medo, sentimento de posse por parte do agressor, falsa concepção de poder e total força que o machismo ainda encontra numa sociedade patriarcal como a sociedade capitalista.
Nesta mesma sociedade e em pleno século XXI encontramos muitas formas de exercitar o conformismo e a cegueira coletiva às opressões ainda tão presentes. A mídia de massa ainda encontra formas sutis de praticar apologia à violência contra a mulher, como é o caso da nova onda de humor preconceituoso, onde ser estuprada é motivo de “graça” (quase que uma benção) e ser assediada no metrô é motivo pra ficar contente, afinal, não segue os padrões de beleza pré-estabelecidos socialmente; formam-se assim opiniões acríticas, preconceituosas acerca do papel da mulher na sociedade e no humor: a piada.
Não é só pela televisão que esse conteúdo chega às massas, os mais privilegiados no sentido da informação rápida e abundante, os internautas, ainda são muito influenciados pelo acesso direto às pessoas responsáveis por esse tipo de informação aparentemente inofensiva e lúdica, e acabam “disseminando” sem senso crítico o que deveria ser abominável, transformando-o em algo banal.
E é nessa lógica de banalidade que 87% dos agressores de mulheres são seus atuais ou ex-companheiros, que se acharam no direito de humilhá-las, espancá-las e até assassiná-las. Os demais 13% são os que quebram o braço de garotas que não querem dançar com eles nas boates, os que compartilham um “Manual para entender as mulheres” que deixa claro que Não = Sim, ou os que vêem numa saia curta um letreiro luminoso com os dizeres “ESTUPRE-ME”.

Dedicamos estas palavras, quase gritos de liberdade, a todas as mulheres que se sentem vitimizadas pelo machismo e pela limitação de pensamento provida pelo capitalismo. Precisamos de políticas sociais voltadas para a superação da impunidade dos agressores, por meio da divulgação das penalidades e oportunidades de denúncia que muitas mulheres ainda desconhecem. Cabe à sociedade o despertar para uma realidade que exige a sua organização e mobilização em prol de manifestações de suas necessidades e direitos. 

Somente na luta classista e combativa somos capazes de fazer nós mesmos o que a nós nos diz respeito!



domingo, 20 de novembro de 2011

Mulher negra, mulher guerreira: a luta contra a opressão da escravidão aos dias atuais


O processo de escravização iniciado a partir da colonização do Brasil transformou homens e mulheres negros(as) em objetos/mercadorias, sendo instituído todo um sistema de dominação e exploração de sua força de trabalho; sistema esse que construiu e determinou nossa identidade nacional, a qual vem na contramão da consolidada idéia de “democracia racial” vigente em nossa sociedade.
A mulher negra, particularmente, no período colonial tinha a função de servir a seus “donos”, em todos os aspectos, seja com trabalhos domésticos ou como objeto sexual. Assim, a construção histórica da identidade da mulher negra e a violência sexual perpetrada no período colonial refletem o modo como as relações de gênero e raça configuram-se atualmente. As relações sociais em nossa sociedade, ainda retratam o período escravista.
As mulheres negras ainda exercem trabalhos servis (empregada doméstica, babá, cozinheira, etc.), fazem parte da parcela da sociedade (pobre, periférica e oprimida) que tem menos acesso (ou não tem) à educação e à cultura; sofrem muito mais com o padrão de beleza normatizado e imposto (modelo da mulher branca), pois o estereótipo de beleza vigente determina desde o modo como a mulher negra se enxerga, enquanto pertencente a uma descendência com características físicas peculiares – e, portanto, que mudanças visuais e estéticas se impõem para enquadrar-se e ser aceita socialmente –, até a aquisição de uma vaga o mercado de trabalho (quantos não são os anúncios de emprego que exigem “boa aparência”?).
Desse modo, a luta das mulheres negras tem questões que o feminismo clássico (tomando como referência o feminismo europeu), ao trabalhar a opressão feminina, ainda não conseguiu se apropriar e engendrar forças para sua superação. Isso acontece porque a luta das mulheres negras está para além da luta contra a opressão masculina; as mulheres negras ainda precisam lutar contra o preconceito racial e, por que não dizer também, contra a pobreza e a exploração que as mantêm reféns de trabalhos servis, extenuantes e mal remunerados. Assim, nos questionamos: que mulheres as conquistas feministas, na sociedade brasileira, favoreceram?
Mais que voltarmo-nos para a variável gênero e a busca pela superação da construção histórica da dominação masculina, devemos articular e aglutinar nossas forças na luta relacionada às questões de classe e raça também. Só seremos libertas da opressão se todos os tipos de opressão forem eliminados. Só assim alcançaremos a real unidade na luta das mulheres, quando entendermos que existem formas complementares de dominação e exploração que dão corpo e fortalecem a opressão de gênero vivida cotidianamente pelas mulheres. A liberdade da mulher só virá com a libertação humana!
A feminista norte-americana Patricia Collins elege alguns “temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”.  Entre eles, se destacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e o combate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.
Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a imagem da empregada doméstica como elemento de análise da condição de marginalização da mulher negra. Conclui, então, que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas ações e ideologia do grupo dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através da reflexão e da ação política”.
Desse modo, trazemos como símbolo da resistência e da luta dos negros no Brasil, de modo geral, e das mulheres negras, em particular, o dia 20 de novembro. É inegável o protagonismo e a importância da mulher negra na luta contra a escravidão e na formação dos quilombos. Resgatar o papel histórico da mulher negra na luta por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressões é imprescindível para o fortalecimento da luta feminista no Brasil. 

Por uma sociedade multirracial e pluricultural, onde as diferenças se tornem equivalência e não mais subordinação!