sábado, 25 de julho de 2020

As mulheres pretas e a luta cotidiana, uma memória ao dia 25 de Julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, e Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha.

O processo de escravidão iniciado a partir da colonização do Brasil foi marcado pela objetificação e mercantilização de homens e mulheres pretas, sendo instituído todo um sistema de dominação e exploração de sua força de trabalho e de suas vidas. Esse mesmo sistema construiu e determinou nossa identidade nacional, que é o total oposto da suposta ideia de existência de uma “democracia racial” na sociedade brasileira.

No período colonial, a exploração dos corpos das mulheres pretas, ia muito além de mão de obra de trabalho escravo, essas mulheres sofriam violência sexual, eram obrigadas a abandonar seus filhos, entre tantas outras violências. A construção histórica da identidade da mulher preta e a violência sexual perpetrada no período colonial refletem o modo como as relações de gênero e raça configuram-se atualmente. As relações sociais em nossa sociedade, ainda retratam o período da escravidão.

Mulheres pretas ainda exercem trabalhos mal remunerados e com péssimas condições de trabalho, além de ocuparem a maior fração do mercado de trabalho informal e as fileiras do desemprego; mulheres pretas fazem parte de uma parcela pobre, periférica e oprimida da nossa sociedade, com maior dificuldade de acesso à educação e à cultura; mulheres pretas sofrem muito mais com a normatização de um ideal de beleza eurocêntrico imposto, que violenta os corpos dessas mulheres, e carrega um estereótipo de beleza que afeta o modo como a mulher preta se enxerga, afeta seu pertencimento e sua identidade de descendência, forçando mudanças visuais e estéticas para que essa mulher passe por um processo de embranquecimento para enquadrar- se e ser aceita socialmente, em suas relações afetivas, até o processo de entrada no mercado de trabalho; mulheres pretas têm que ver seus filhos e companheiros mortos pela política genocida do estado; mulheres pretas são as maiores vítimas de violência doméstica, de violências sexuais e feminicídios; mulheres pretas trans, travestis, lésbicas, lgbtqia+ estão no topo dos índices de pessoas assassinadas. 

A luta das mulheres pretas tem questões que o feminismo eurocêntrico ainda não conseguiu se apropriar e conceber forças e meios de luta para o combate às explorações e opressões contra as mulheres. A luta das mulheres pretas ultrapassa a luta contra a opressão masculina, as mulheres pretas ainda precisam lutar contra o preconceito racial, contra a pobreza e a exploração, contra a homofobia e a transfobia, contra o extermínio de seus corpos, de seus filhos, contra jornadas de trabalho extenuantes e mal remuneradas. 

Assim, nos questionamos: que mulheres foram favorecidas pelas conquistas feministas na sociedade brasileira?

Além de nos debruçar sobre a variável gênero e a busca pela superação da construção histórica da dominação masculina, devemos articular e unir nossas forças em uma luta que esteja atravessada por elementos de classe, raça e sexualidade. Só seremos libertas da opressão se todos os tipos de opressão forem eliminados. Só quando entendermos que existem formas complementares de dominação e exploração que dão corpo e fortalecem a opressão de gênero vivida cotidianamente pelas mulheres, podemos alcançar a real unidade na luta. A liberdade da mulher só virá com a libertação humana!

Esse texto é uma lembrança de luta em referência ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, e ao Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha, 25 de Julho, um dia de trazer visibilidade e fortalecer a luta das mulheres. Na resistência e na luta do povo preto no Brasil, é inegável o protagonismo e a importância da mulher preta na luta contra a escravidão e na formação dos quilombos. Resgatar o papel histórico da mulher preta na luta por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressões é fundamental para o fortalecimento da luta feminista no Brasil. 

MULHERES RESISTEM! 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

LEI MARIA DA PENHA

O texto que vamos compartilhar hoje, foi produzido para um debate sobre violência contra a mulher, organizado pelo Mulheres Resistem, que aconteceu na sede da Resistência Popular Alagoas no ano passado, e tem como proposta a apresentação da Lei Maria da Penha.

Lei de nº 11.340/2006 Lei Maria da Penha.

A Lei de nº 11.340/2006, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica contra mulher, é conhecida como Lei Maria da Penha. Pra contextualizar a situação acerca da Lei, vamos conhecer um pouco da história da própria Maria da Penha.

Maria da Penha Maia Fernandes é uma farmacêutica bioquímica que foi vítima de violência doméstica por 23 anos. Após a segunda tentativa de homicídio realizada por seu marido, quando já se encontrava paraplégica em virtude de um tiro disparado pelo mesmo, ela o denunciou. Após a denúncia, Maria da Penha sofreu o que muitas mulheres enfrentam nessa situação, o descaso e a incredulidade por parte da Justiça Brasileira. A defesa do agressor era sempre acerca de irregularidades processuais, e ele aguardava o julgamento em liberdade. O marido de Maria da Penha foi punido somente após 19 anos.

Além de escrever o livro “Sobrevivi… posso contar”, que narra as violências sofridas, Maria da Penha acionou organismos internacionais que tratavam da defesa dos direitos da mulher e dos direitos humanos, até que o Estado Brasileiro foi condenado por omissão e negligência pela Corte Interamericana de Direito Humanos da Organização dos Estados Americanos, quando o Brasil teve que se comprometer em reformular suas leis e políticas em relação à violência doméstica,  a partir daí que surgiu a lei que leva seu nome.

O primeiro aspecto da Lei Maria da Penha que vale a pena ressaltar é que o agressor não precisa ser necessariamente ao marido. O seu artigo 5º prevê que configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, e dano moral ou patrimonial.

Essas ações podem acontecer: I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

O agressor pode ser pai/mãe, irmão/irmã, tio/tia, marido, namorado, padrasto/madrasta, sogro/sogra, cunhado/cunhada ou agregados, desde que a vítima seja mulher.

Outro ponto importante diz respeito ao parágrafo único do referido artigo que ressalta: As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual. De modo que a aplicação da lei Maria da Penha garante o mesmo atendimento para mulheres que estejam em relacionamento com outras mulheres. Além disso, recentemente, o Tribunal de Justiça de São Paulo garantiu a aplicação da lei para mulheres transexuais. 

O segundo aspecto diz respeito ao fato que, a lei prevê um leque com vários tipos de violências domésticas, superando o entendimento de que violência se tratava apenas de violência física. O seu artigo 7º prevê como formas de violência: a violência física; a violência psicológica; a violência sexual; a violência patrimonial; a violência moral. Todos esses conceitos são devidamente explicados no referido artigo. 

O terceiro aspecto diz respeito a possibilidade de prisão preventiva do agressor em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução criminal – conforme o artigo 20 da lei; além de não ser possível a substituição da pena por doação de cesta básica ou multas, conforme o art. 17.

Analisando as medidas penalistas, nas medidas protetivas de urgência, o artigo 22 prevê as seguintes medidas: I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente; II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entre as quais: a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; c) frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida; IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar; V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios. Ou seja, além da proteção à vítima e também de seus parentes, ainda existe a possibilidade de assistência econômica no caso da vítima ser dependente do agressor.

Essas medidas protetivas são requeridas perante o Juiz e esse tem um prazo de 48h para decidir sobre os pedidos apresentados.

Por fim, como último aspecto, nos artigos 29 e seguintes, da Lei Marinha da Penha, há a precisão de uma equipe multidisciplinar para tratar do caso, com profissionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e de saúde.

Apesar de ser uma lei muito bem inscrita e que a maioria da população tem ciência da sua existência, mesmo que não tenha do seu conteúdo, temos que ter consciência de que o maior desafio atual é aplicar essas previsões legais no mundo real, e que a luta pelos direitos das mulheres deve ser constante.

Lugar de mulher é na luta, MULHERES RESISTEM!

 

 

 

 

 



quarta-feira, 3 de junho de 2020

O CUIDADO DESEMPENHADO POR MULHERES NOS TEMPOS DE PANDEMIA



Socialmente as mulheres assumem a responsabilidade do cuidado com a saúde dos indivíduos, trata-se de um trabalho elementar para o desenvolvimento social, econômico e político. Tal desenvolvimento não se justifica, senão para prover os indivíduos de bens de consumo e serviços essenciais à existência humana, inclusive à saúde. A saúde proporciona ao ser humano a força necessária para realização da existência nas suas diversas dimensões.  No entanto, muito nos chama a atenção de como o cuidado é comumente visto como algo inerente à biologia feminina e não como um processo histórico. Mais interessante ainda é como esse trabalho de cuidar, tão essencial para a reprodução da existência humana, não se valoriza como tal. No máximo, é visto como caridade ou altruísmo e suas executoras como heroínas ou mártires que por obrigação devem colocar esse cuidado acima de seus próprios interesses, acima de sua própria existência.
No atual contexto de pandemia pelo coronavírus (COVID-19/ SARS-COV-2), o cuidado feminino com a saúde da população se coloca em evidência devido ao forte impacto econômico desta doença, especialmente nas camadas mais fragilizadas pela pobreza e falta de recursos para a promoção e prevenção da saúde, bem como no cuidado de doenças agudas e crônicas e suas complicações (especialmente idosos), e até mesmo para a parcela que necessita de maior proteção para o seu pleno desenvolvimento (crianças e adolescentes). Quem está na linha de frente no combate a essa pandemia, tem que se submeter a jornadas de trabalhos exaustivas, muitas vezes por 24 horas. Sem contar na exposição ao vírus, sobretudo por que muitos hospitais estão sem os devidos equipamentos de proteção individual. Com relação a isso, o Ministério Público do Trabalho (MPT) em Alagoas, por meio da Coordenadoria de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho, colocou-se à disposição dos sindicatos que representam médicos, odontologistas, enfermeiros e auxiliares, e técnicos de enfermagem para receber demandas de descumprimento de proteção à saúde do trabalhador.  No relatório elaborado pela ONU “Mulheres no centro da luta contra a crise do COVID-19”, é destacado que a pandemia afeta de maneira significativa a vida das mulheres em inúmeros aspectos. Mas neste texto trazemos alguns recortes em relação ao trabalho feminino em saúde, especificamente de países em desenvolvimento, pois:
- Apesar de 70% da força de trabalho no setor saúde ser composta por mulheres, o que as expõe a um maior risco de infecção, as mulheres não chegam nem a 30% nas esferas de poder de decisão sobre politicas e recursos no enfrentamento da pandemia. 
- Somos nós mulheres trabalhadoras da saúde que temos que lidar com o contexto da falta de equipamentos de proteção (EPIs) adequados x jornadas exaustivas de trabalho colocando em risco a nossa saúde e de nossos familiares. 
- Mulheres são maioria em vários setores de empregos informais, principalmente relacionados ao cuidado, como trabalhadoras domésticas e cuidadoras de idosos, o que significa maior exposição e menor proteção social contra o desemprego, decorrente do isolamento social necessário para achatar a curva de contaminação pelo vírus.
- No contexto do cuidado em saúde dentro do ambiente doméstico, a mulher, mesmo que não seja profissional de saúde, se vê sobrecarregada com inúmeros outros afazeres, além do cuidado dos familiares afetados pela pandemia, tais como o home office, a educação dos filhos, trabalhos domésticos, sendo a sua saúde colocada em último lugar o que aumenta o risco de adoecimento não só físico, mas mental.
- Contribui para o agravamento deste quadro a maior exposição da mulher à violência doméstica dos companheiros, o que já era considerado uma epidemia crescente, pois suas sequelas físicas e emocionais também são demandas em serviços de saúde, o que agora no contexto de pandemia acaba sendo invizibilizado.




Aqui em Alagoas, mais de 191 profissionais da saúde foram afastados dos seus trabalhos por estarem com suspeita de contaminação do vírus. Por uma questão de protocolo de saúde, muitos estão afastados dos seus familiares, completamente isolados. No mês de Maio houve a primeira morte de um profissional da saúde, uma mulher, enfermeira. Preocupado com o avanço da pandemia e com a segurança dos profissionais de saúde, o Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas (Coren-AL) enviou documento ás autoridades recomendando que sejam afastados os profissionais de enfermagem que são do grupo de risco. O documento destaca que esses profissionais podem desempenhar suas atividades na modalidade de teletrabalho ou devem ser realocados para ambientes que ofereçam menos riscos.
Enxergando todas essas questões, seguem algumas sugestões:
- É preciso que nos organizarmos politicamente para fiscalizar o emprego de verbas na contratação de mão de obra na área da saúde e aquisição de EPIs para as trabalhadoras, bem como recursos e infraestrutura adequados para o atendimento às vítimas do coronavírus.
- É preciso pressionar as chefias e gestores de estabelecimentos de saúde para a adequação de escalas de trabalho, no sentido de diminuir a exposição e a sobrecarga de trabalho entre as profissionais.
- É preciso pressionar as instituições para aquisição de EPIs adequados, fazendo valer a ética profissional, e a negação de assistência aos pacientes, se for o caso, devido ao risco de exposição. Isso parece extremo, mas é desumano como não só os gestores e chefias, mas também as próprias colegas de profissão julgam a moral e a capacidade técnica da profissional de saúde que se recusa a se expor em situações como essa, como se a profissional fosse obrigada a colocar sua vida em segundo plano.
- É preciso exigir valorização profissional, sem o equívoco de campanhas publicitárias romantizadas, mas construindo espaços com equidade, para que todas as categorias profissionais e os gêneros dentro dos serviços de saúde, possam assumir os cargos de gestão que são majoritariamente assumidos por médicos homens. Além disso é preciso que haja valorização financeira dos profissionais de saúde como um todo, não somente de médicos, pois ainda há quem tire do próprio bolso a compra de EPIs e insumos para poder trabalhar protegido.
- É preciso que as mulheres cuidadoras e idosas sejam prioridade nas políticas de distribuição de renda e incentivo à educação e emprego dentro da sociedade, por serem elas as que estão em maior vulnerabilidade social devido ao desemprego e subemprego consequentes do isolamento social.
Por todos esses motivos, nós mulheres, especialmente as trabalhadoras de saúde, temos que refletir e agir diante do nosso papel dentro da sociedade para que possamos ultrapassar essa situação de naturalização da desigualdade social e de gênero, e avançar no sentindo de valorização profissional do cuidado desempenhado por mulheres.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Nossa força move o mundo: lançamento da Campanha de Luta por Vida Digna - Editorial do Repórter Popular


CAMPANHA DE LUTA POR VIDA DIGNA
PAUTA DE EMERGÊNCIA POPULAR CONTRA O CORONAVÍRUS
NOSSA FORÇA MOVE O MUNDO, LUTAMOS POR VIDA DIGNA!

Nossa luta nunca parou. Ao redor do mundo, são os nossos braços que constroem e operam máquinas, que dirigem e entregam mercadorias, que projetam, fabricam, embalam, distribuem e vendem produtos. Nossa vida como povo sempre dependeu de estarmos na ativa, firmes e fortes, mesmo nas piores condições.

Condições que pioraram nos últimos anos. O governo, junto com os mais ricos do Brasil, flexibilizaram as leis trabalhistas (nossas garantias), precarizaram nosso trabalho (nossa dignidade), colocaram milhões na rua (nosso ganha-pão) e por fim, aos que ficaram, sobrou trabalhar quase que de graça.

Os investimentos nos serviços públicos diminuíram, fazendo a qualidade piorar. Muitas vezes nos fazendo correr atrás de convênios de saúde ruins para resolver problemas que antes eram resolvidos no postinho, ou ficar meses em uma fila da creche e ter que deixar o filho cada vez mais longe de casa. Depois de anos trabalhando e contando os dias para a aposentadoria, parece que agora nem adianta mais contar. Se temos um benefício baixíssimo do governo, outro que aparece não podemos ter. O pouco que falta é muito para quem não tem nada. Cada dia mais estamos sendo encurralados por quem não parece se importar.

Hoje, com a pandemia, a situação fica ainda mais perigosa e injusta. Ditam como essenciais atividades que mantém a vida dos mais ricos confortáveis e se não concordamos, somos dispensadas e dispensados. Não nos dão importância, nos matam ao nos deixar sem proteção trabalhando, não existe opção para quem depende de baixo salário. O deslocamento faz parte do trabalho, a aglomeração faz parte do trabalho.

Matam nossas crianças, entram em nossas vilas com tratores e em nossas casas sem permissão e continuam fazendo isso na pandemia. Parece que esse trabalho não foi interrompido, pelo contrário, estão matando mais pretas e pretos, pobres e mulheres.

Todos os dias vemos os povos indígenas exigindo que parem de matá-los também, de matar a natureza. Os indígenas dizem que a natureza revida. Nas chuvas, no frio e no calor, todos nós sentimos isso. Perdemos nossos bens, os peixes param de vir, as plantações sofrem e a noite nós pensamos: “Como podemos sobreviver mais amanhã?”. Não existe lugar em que possamos ir para resolver nossos problemas. Não existe fila que resolva.

A destruição dos nossos recursos naturais, das nossas águas e da nossa terra está na agenda dos grandes senhores do capital. Além disso, nossos povos originários e comunidades tradicionais gritam de dor e exclamam suas defesas em nome dos ancestrais caiçaras, coletores, marisqueiras e pescadores que cuidam de nossas matas, rios, lagoas, mares e terras produtivas para o povo.

Por isso, como trabalhadores, estudantes, desempregadas e desempregados, militantes e lutadoras e lutadores populares, jovens de periferia e do campo, gente que vive do seu trabalho e não aceita as condições horríveis que lhes são impostas, estamos organizadas e organizados em uma ampla campanha de luta por vida digna, contra a vida cara e violenta que nos é imposta e contra o horror da pandemia.

Nem aceitar passivamente a situação, nem deixar que o medo nos paralise: estamos em todo o país, nos organizando como pudermos para fazer ações de solidariedade, nas vilas e nas favelas. E nos colocando a serviço de quem precisa, sem nunca parar de dizer que essa crise tem culpados. Sem desistir de lutar por uma vida digna.

Diante deste cenário, nossas demandas e ações nesta campanha incluem diferentes eixos:

1) SAÚDE PÚBLICA E UNIVERSAL

Requisição dos meios particulares para ampliação do sistema público e gratuito do SUS. Testagem em massa e gratuito para trabalhadoras e trabalhadores, ampliação do número de agentes comunitários de saúde, estendendo para além da pandemia a maior atenção primária e valorização destes trabalhadores. Entre nós, valorizar e participar de ações de solidariedade organizadas em redes de apoio mútuo para conter o atual cenário de contágio do COVID-19, campanhas de distribuição de testes, máscaras de proteção facial e outros EPIs para a população e para profissionais da saúde na linha de frente no combate à pandemia. Para ajudar na produção de máscaras e distribuição às pessoas, ateliês de costura e costureiras tem feito um excelente trabalho em produzi-las e muitas vezes de forma gratuita.

2) DISPENSA REMUNERADA E RENDA SOCIAL PERMANENTE

Garantia de dispensa do trabalho nas atividades não essenciais, sem demissões e nem redução salarial. Renda básica permanente de PELO MENOS 1 salário mínimo e meio para todos os trabalhadores, principalmente o povo da economia informal, desempregadas e desempregados, trabalhadoras e trabalhadores em condições precárias na rua como de entrega e serviços. Este valor ainda está muito abaixo do valor apontado pelo DIEESE, que é mais de R$ 4 mil mensais para sustentar dignamente uma família de 4 pessoas.

3) SUSPENSÃO DE CONTAS, DÍVIDAS E PENAS

Suspender aluguéis, dívidas, empréstimos e multas. Isenção de tarifas de serviços essenciais que afetam a vida dos mais pobres. Liberação das penas dos presos no regime semi-aberto e de quem não tem julgamento. A grande maioria de presas e presos é pobre e negra, sofrendo com o encarceramento em massa que mata diariamente, humilha familiares e aprofunda o genocídio do nosso povo.

4) DIREITO A MORADIA DIGNA

Solidariedade à população em situação de rua e sem-teto! Suspensão imediata de despejos ou ordens judiciais de reintegração de posse. Fazer cumprir a função social de edifícios vazios para fim de moradia digna e amparo a todas e todos. Subsídio de hoteis próximos a hospitais para profissionais da saúde para proteção de suas famílias. Se morar é um direito, ocupar é um dever!

5) ABASTECIMENTO POPULAR

Disponibilizar mantimentos da merenda escolar para consumo em casa. Prioridade aos serviços de abastecimento e tratamento comunitários de água e esgoto, bem como fornecimento de energia elétrica, ou seja, serviço ininterrupto aos locais sem possibibilidade de armazenamento. Possibilidade de uso das cozinhas escolares para a produção de marmitas a serem distribuídas àqueles sem acesso à condições de preparo.

6) INVESTIMENTO PÚBLICO E DIVISÃO DA RIQUEZA

Aumento dos investimentos públicos para as necessidades populares de saúde, renda, abastecimento e plano de economia popular para suprir as urgências sanitárias. Taxação das grandes fortunas, dos lucros e dividendos dos grandes empresários e fim do ajuste fiscal.

7) CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO PRETO, POBRE E PERIFÉRICO

Contra as ditaduras e o poder de governar pela morte do povo. Pelo fim da criminalização e encarceramento sistemático da população preta e periférica, justificado pela falácia da guerra às drogas. A crise é permanente contra o povo preto e pobre, atingidos pela ausência de direitos, afetos e oportunidades. Vigiados pela naturalização racista da higienização social.

8) DIREITOS DOS POVOS ORIGINÁRIOS E POPULAÇÕES TRADICIONAIS

É preciso fortalecer as redes de solidariedade e apoio mútuo com indígenas, quilombolas e povos da mata e das águas, pois com o território espoliado fica prejudicada a autonomia alimentar, as práticas de cuidado e de atenção à saúde. Pela imediata demarcação das terras indígenas e titulação dos territórios quilombolas! Pelo fim do genocídio nos territórios tradicionais! Contra o aparelhamento da FUNAI pelo missionarismo neopentecostal, que busca catequizar as populações indígenas não contatadas, levando a Covid-19 e outras epidemias, como o vírus do colonialismo!

9) PARALISAÇÃO IMEDIATA DA MINERAÇÃO NO BRASIL

A mineração foi considerada atividade essencial pelo governo federal. A continuidade da extração mineral nesse modelo só importa para quem lucra em cima da exploração dos trabalhadores do setor, cujas vidas já eram colocadas em risco, em condições de extrema insalubridade antes da pandemia. Tal decisão é parte do projeto genocida neoliberal, para garantir os ganhos estratosféricos
do capital industrial e financeiro ligado à extração mineral. Essencial é a vida do povo!

10) REFORMA AGRÁRIA POPULAR E A LUTA DO CAMPESINATO

Reforma agrária já! Direito à terra e à alimentação de qualidade para todos! Com a pandemia, ficou ainda mais evidente que quem garante o abastecimento das cidades são os pequenos produtores rurais, as trabalhadoras e trabalhadores da terra. Pelo fortalecimento dos movimentos sociais do campo, linha de frente da luta pela terra. Pelo fim dos assassinatos no campo, a mando do latifúndio
e do agronegócio. A luta e a resistência campesina garantem a soberania alimentar de todo o povo em território brasileiro. Pelo fortalecimento dos vínculos e redes de apoio mútuo e solidariedade entre campo e cidade na luta por vida digna.

11) PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

O isolamento social traz para perto das mulheres seus agressores e dificilmente elas conseguem expor a situação. Além de conviver com o silêncio da violência são sobrecarregadas com o cuidado da casa e da família, o que afeta ainda mais sua condição psicológica. São as mulheres mais pobres que ocupam a linha de frente do atendimento à saúde e que se expõem como empregadas domésticas. Seja saindo de suas casas todos os dias ou em isolamento social, sobretudo mulheres
pretas e periféricas, que sofrem as dores e o medo da morte mais de perto.

12) CONTRA O DESMONTE DA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Na luta contra qualquer corte que se apresente no orçamento ou na estrutura da educação pública. Contra os ataques aos trabalhares e trabalhadoras da educação! Pela suspensão do calendário letivo de escolas, institutos e universidade de acordo com a continuidade do isolamento social. Contra a política neoliberal de implementação do EaD ou de atividades remotas no setor da educação pública, uma vez que a realidade do povo brasileiro não permite o acesso aos recursos necessários, em especial durante a pandemia. Pelo acesso e permanência de crianças e jovens à educação básica de qualidade. Em defesa dos estudantes do povo. Pelo fim do vestibular!

Assinam esta campanha:

– Alternativa Popular (Londrina/PR)
– Ateneu Libertário A Batalha da Várzea (Porto Alegre/RS)
– Dandaras – Coletivo de Mulheres Negras (Santa Maria/RS)
– Escolinha Comunitária Elena Quinteros (Santa Maria/RS)
– Movimento de Organização de Base (MG)
– Movimento de Organização de Base (RJ)
– Movimento de Organização de Base (PR)
– Movimento de Organização de Base (PA)
– Movimento Passe Livre (Joinville/SC)
– Mulheres Resistem (AL)
– Mulheres na Resistência (RJ)
– Mutirão – Grupo de Trabalhadores da Terra (RS)
– Ocupação Vila Resistência (Santa Maria/RS)
– Pintelute (SC)
– Rádio Comunitária A Voz Do Morro (Porto Alegre/RS)
– Resistência Popular (AL)
– Repórter Popular
– Resistência Popular Estudantil (Florianópolis/SC)
– Resistência Popular Estudantil (Marília/SP)
– Resistência Popular Estudantil (Araraquara/SP)
– Resistência Popular Estudantil (RJ)
– Resistência Popular Estudantil (PR)
– Resistência Popular Sindical (PR)
– Resistência Popular (RS)
– Vila Boa Esperança (Porto Alegre/RS)

26 de maio de 2020

Se o seu coletivo, movimento ou associação quiser se somar à campanha, entre em contato com o Repórter Popular pelo WhatsApp (+5551989606682), Facebook (https://www.facebook.com/reporterpop/) ou Instagram (http://www.instagram.com/reporterpopular).